A FELICIDADE E O PESO DO INSTANTE: UMA LEITURA ONTOLOGIGA.
A felicidade, tão frequentemente buscada nos desvios do futuro ou nas ruínas do passado, só se deixa experimentar no instante. O tempo, enquanto sucessão cronológica, ilude-nos com a ideia de permanência, mas, como advertiu Santo Agostinho nas Confissões: “O que é, afinal, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei”. Esse enigma nos conduz à percepção de que o presente não é uma medida entre o antes e o depois, mas o único ponto de contato entre o ser e a vida. O passado já não é, o futuro ainda não é: só resta o agora.
Kierkegaard, em sua reflexão existencial, lembrava que “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente”. Aqui se instala o paradoxo: buscamos compreender o que já se perdeu e projetamos o que ainda não veio, mas esquecemo-nos de que a vida se consuma no instante que escorre silenciosamente entre esses dois abismos. A felicidade, portanto, não é projeção nem lembrança, mas consentimento com a precariedade do momento presente — um salto de fé que reconhece a fragilidade do agora como espaço da eternidade.
Heidegger, ao pensar o ser-no-tempo, nos lembra que “o homem é um ser para a morte”. Esta constatação não é trágica, mas libertadora: é porque sabemos da finitude que podemos experimentar a plenitude do instante. O “ser-para-a-morte” não é um convite ao desespero, mas à autenticidade. Felicidade, nesse horizonte, é assumir o presente como o único lugar onde a existência realmente se dá, sem adiamentos, sem protelações, sem exílios no que já foi ou no que talvez será.
O instante é, portanto, mais do que mera passagem: ele é revelação. Nietzsche, com sua noção de eterno retorno, radicaliza essa visão ao propor que devemos viver cada instante como se estivéssemos dispostos a repeti-lo eternamente. “O que foi, é eterno” — e justamente porque não podemos alterar o que já passou, somos chamados a viver cada momento como absoluto, como se nele estivesse contida toda a vida.
Assim, a felicidade não é acúmulo de experiências, nem conquista futura, nem mesmo memória de glórias passadas. Ela é a epifania do presente. Habitar o instante com consciência de sua fragilidade é tocar, ainda que por um breve sopro, a eternidade. O tempo, como dizia Agostinho, só existe no espírito; e é no espírito que se dá a felicidade — não como estado permanente, mas como lampejo, acontecimento, encontro.
A sabedoria consiste, portanto, em reconciliar-se com a efemeridade, em reconhecer que não haverá outro momento senão este que arde agora. Como um sacramento do existir, o presente é tudo o que nos é dado, e nele se concentra a densidade do ser. Viver é aceitar que a felicidade não está em outro lugar, nem em outro tempo, mas neste instante — que passa, e justamente por passar, nos revela sua eternidade.