DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

A VIDA DÁ VOLTAS

 

Há três dias, o peso de uma necessidade me esmaga o peito: preciso de dois mil reais. Não é luxo, não é capricho — é sobrevivência. O carro com que trabalho está na oficina há duas semanas, e sem ele, não há como gerar renda. Enquanto isso, as contas não esperam: o básico do dia a dia e os boletos do mês vão se acumulando como pedras sobre o meu corpo cansado.

 

Diante disso, fiz o que poucos homens orgulhosos suportam fazer: pedi ajuda. Redigi um texto explicando a situação, expus minha vulnerabilidade, meu momento de aflição, e enviei para dez pessoas que considerei amigas. Dez. O texto estava repleto de justificativas – algumas até constrangedoras, admito – mas todas carregadas de sinceridade. A resposta, no entanto, foi unânime: "Não tenho."

 

Não foi a resposta em si que mais me feriu, mas o eco que ela trouxe. A verdade surda e cruel de que, ainda que muitos ali tivessem o valor ou meios para me ajudar, preferiram não fazer. A ausência de gesto, de empatia, de presença — isso dilacera mais que a negativa.

 

Naquele instante, uma frase dita por meu pai anos atrás me atingiu como um soco seco na alma: "Não existe amigo." Como doeu lembrar disso. Principalmente porque um dia, por acreditar demais na lealdade de um desses "amigos", briguei com meu próprio pai, disse-lhe palavras duras que até hoje me pesam na memória. Eu quis defendê-los. Hoje vejo o quão cego eu estava.

 

O sentimento que me invadiu ao ler aquelas desculpas tão bem ensaiadas foi estranho. Um misto de mágoa, decepção e um silêncio interno que grita. Porque eu sei — e eles também sabem — que nunca medi esforços para ajudar. Não foram poucos os que estendi a mão, mesmo quando eu próprio estava quase sem chão.

 

Mas a vida é cíclica. E é justamente por isso que sigo. Ela dá voltas. E quando voltar, que me encontre em paz, de pé, mais forte. Não por vingança, mas por aprendizado. Porque a dor ensina. A decepção, lapida. E a solidão revela quem realmente somos — e quem verdadeiramente está conosco.

 

Eu sigo. Com menos ilusões, com mais cautela, mas com a mesma dignidade. Porque, no fim, é isso que me pertence. E essa, ninguém tira.

 

 

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 23/06/2025
Alterado em 02/11/2026