ANÁLISE PERSONALISTA DO FILME O REI LEÃO
As perguntas bem feitas ajudam a pensar mais — e melhor.
E se Scar for um aspecto de Simba? Uma espécie de dimensão que antecede a razão, uma parte renegada de si mesmo porque obscura, mórbida e perigosa; uma dimensão que coloca em ato o parricídio — possível, ainda que apenas no campo da fantasia, nos moldes da formulação freudiana acerca do complexo de Édipo?
E se as hienas forem as nutrizes desse “demônio” chamado Scar? Pensamentos punitivos que alimentam aquilo que assombra Simba, fazendo-o carregar a culpa pela morte de seu pai, Mufasa. Mas, paradoxalmente, esse mesmo conflito é o que viabiliza sua jornada em busca de si mesmo e da construção de uma narrativa autoral para sua própria história.
Simba precisa afastar-se de sua origem, perder-se para, de algum modo, poder encontrar-se. E, nessa travessia, estabelece alianças improváveis com aqueles que, em outras circunstâncias, seriam apenas presas ou jamais teriam a proximidade de um felino destinado à realeza.
E se as hienas representarem justamente esses pensamentos punitivos que nutrem o monstro? Pensamentos que, enquanto encontram um objeto sobre o qual descarregar sua violência, parecem ter vida própria; mas que, quando o monstro enfraquece, voltam-se contra ele e o devoram?
Curioso, não?
E Timão e Pumba? E se eles simbolizarem a alteridade necessária para que o sujeito possa tornar-se minimamente autêntico e, finalmente, chamar de seu o destino que o espera?
Talvez, quando se está no bico do corvo — ou, no caso de Simba, cercado por abutres —, uma rede de amparo seja aquilo que possibilita ao sujeito levantar-se. Nem sempre é preciso encontrar alguém semelhante a nós. Às vezes, é justamente o encontro com o diferente que nos devolve a possibilidade de existir de outra maneira.
Timão e Pumba não resolvem o conflito de Simba. Eles não eliminam o passado, não substituem Mufasa e tampouco enfrentam Scar em seu lugar. Eles oferecem outra experiência de existência. Uma espécie de intervalo entre a culpa e a responsabilidade; entre aquilo que aconteceu e aquilo que ainda pode ser construído.
E se ser rei significar, antes de tudo, assumir a responsabilidade de tornar-se adulto?
Talvez o verdadeiro conflito de Simba não seja simplesmente recuperar o trono, mas apropriar-se de sua própria história. Tornar-se responsável por aquilo que recebeu, por aquilo que perdeu e, sobretudo, por aquilo que poderá fazer com tudo isso.
Por isso, encarar Scar pode significar mais do que enfrentar um inimigo externo. Pode representar a apropriação de uma natureza recalcada porque percebida como fora da lei, pérfida e ameaçadora. Aquilo que foi expulso da consciência, mas que continua existindo nas sombras, esperando ser reconhecido.
Talvez não se trate de destruir Scar, mas de compreender aquilo que Scar representa. A história inteira, então, poderia falar sobre um único personagem: Simba.
Seus conflitos com a figura paterna, sua relação com a figura materna, sua culpa, sua fuga, seus encontros, suas perdas e seu retorno poderiam ser compreendidos como movimentos de um mesmo processo: separar-se dos pais para encontrar uma distância suficientemente segura que lhe permita crescer.
Porque crescer não é simplesmente afastar-se dos pais. É deixar de viver exclusivamente a partir deles. É poder reconhecê-los sem permanecer prisioneiro deles. É receber uma herança sem transformar essa herança em destino inevitável. É olhar para o passado sem precisar morar nele.
Gosto de histórias que moram nos pontos cegos das próprias histórias. Gosto daquilo que permanece escondido atrás do óbvio, daquilo que não foi dito, mas que insiste em aparecer nas entrelinhas. Gosto de perguntas.
Talvez porque uma boa pergunta não encerre uma história. Ela a abre. E O Rei Leão pode ser apenas a história simples e conhecida de um filhote que perde o pai, foge, cresce e retorna para ocupar o lugar que lhe pertence. Mas também pode ser outra coisa.
Pode ser a história de um sujeito tentando reconciliar-se com aquilo que existe dentro dele, assumir a autoria de sua própria existência e descobrir que, para tornar-se quem é, precisará atravessar justamente aquilo de que mais tentou fugir.
A história simples e óbvia também é interessante. Mas eu gosto ainda mais das histórias que continuam acontecendo depois que terminam.
Jeovan Rangel Porto Seguro, Bahia, Brazil - Em 01/10/2019