CANSAÇO E SAUDADES
Estou cansado do nosso tempo. Um cansaço que não nasce do corpo, mas da alma. E, desse cansaço, brotam saudades — saudades de um tempo em que a Palavra soava densa, profunda, sem adornos excessivos. Havia, nos programas de televisão, mensagens bíblicas que alimentavam o espírito, livres de triunfalismos barulhentos, de decretos performáticos e de reivindicações moldadas no egocentrismo do orante.
Sinto falta das orações simples, despidas de vaidade, mas carregadas de fé. Oravam-se súplicas, não ordens; pedidos, não exigências. Os servos do Senhor dobravam os joelhos sem pretender dobrar o Sagrado à própria vontade. Hoje, em contraste, vemos o retorno de relíquias travestidas de devoção, objetos elevados à condição de mediadores do divino. É triste. É preocupante.
Estou cansado deste tempo excessivamente cristianizado e paradoxalmente esvaziado de Cristo. Tenho saudades daquele tempo em que o cristianismo era apenas isso: seguimento do Cristo ressuscitado. Agora, o que se vê é um mosaico confuso de práticas espirituais — fragmentos de esoterismo, espiritualismo difuso, ecos de judaísmo, espiritismo, hinduísmo e tantos outros “ismos” misturados sem critério. O mais grave não é a mistura em si, mas a incapacidade de discernir. O povo já não distingue.
Cansa-me também o estrelismo que tomou os púlpitos. Pastores transformados em celebridades, cultos convertidos em espetáculos, o evangelho reduzido a mercadoria. Sinto saudades — profundas saudades — da humildade silenciosa de tantos servos de Deus que serviam sem holofotes. Essa virtude, outrora central, vai se dissipando como névoa diante do sol. “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3). A pergunta permanece: vivemos isso ou apenas o citamos?
Estou cansado de tanta palavra vazia pronunciada em nome de Deus. Talvez Ele ainda repita, com a mesma dor antiga: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”. E talvez o silêncio que se segue seja o mais eloquente de todos.
Autor: Jeovan Rangel