ÀS VÍTIMA VIVAS DA COVID19
Há tanta gente partindo — e tanta gente já partida — deixando atrás de si corações despedaçados, lares silenciosos e memórias que insistem em pulsar. Gente que um dia partilhou amor, risos, abraços e presenças; que encheu a vida de companhia e significado. Pessoas que tiveram na existência uma dança de chegadas e partidas, e que agora partem — abrupta e dolorosamente — deixando em nós o eco do vazio.
Partem como se o tempo tivesse sido interrompido no meio de uma conversa, no meio de um gesto, no meio de uma promessa. E deixam-nos a dor — a dor do parto, que é dor e também nascimento. Porque o partir, por mais que doa, é verbo de conjugação inevitável: eu parto, tu partes, ele parte, nós partimos... E partiremos todos.
Nascemos já com o bilhete de retorno nas mãos, ainda que o destino final permaneça oculto. Vivemos a ilusão de permanência, construímos planos como quem desafia o vento, mas no fundo sabemos: toda chegada é um prenúncio de despedida.
Partir é também repartir. É deixar pedaços de si espalhados nos outros — fragmentos de voz, de riso, de afeto, de presença. Cada lembrança é um vestígio da alma, cada saudade, um espelho do que fomos.
Mas o essencial é que, enquanto aqui estivermos, repartamos o melhor de nós: o amor que consola, a palavra que sustenta, o olhar que acolhe. Pois quando chegar a hora de partir, que as nossas ausências sejam cheias de presenças — e que a dor que deixarmos não seja apenas perda, mas também gratidão por termos existido.
Porque, afinal, o que morre em nós é o corpo, mas o que fica é o rastro luminoso daquilo que amamos. E as saudades, essas, nunca partirão — permanecerão vivas, habitando corações que, mesmo partidos, continuam a pulsar amor.