O EVANGELHO DA CRUZ: A VERDADE COMPLETA.
Nasci em um lar de líderes batistas. Aprendi que havia um "anjo do Senhor" que protege aqueles que temem a Deus e os livra de muitos perigos (Sl 34:7-8), mas eu me sentia rejeitado e abandonado quando não escapava de doenças, acidentes e surras.
Ficava admirado ao ouvir, nas histórias ilustradas no flanelógrafo, como o menino Davi derrotou o gigante Golias; como Deus livrou Daniel da cova dos leões; e como preservou os três amigos na fornalha ardente (Dn 3:19-30; 6:16-28). Entretanto, eu me frustrava com a moral da história que sempre era ensinada: "Não se esqueçam, meninos e meninas: Deus só protege e livra aqueles que são fiéis e obedientes."
Embora abnegados, esses professores de Escola Bíblica não percebiam que ensinavam uma compreensão incompleta da mensagem. Afinal, Davi venceu Golias, mas não venceu o gigante da sua própria sensualidade e do pecado. Custei a perceber que: Se Davi tivesse vencido a si mesmo, teria sido um herói ainda maior.
Se Daniel e seus amigos tivessem sido mortos por permanecerem fiéis, continuariam sendo heróis da fé — talvez ainda maiores, como tantos outros que sofreram e morreram confiando em Deus (Hb 11:37-38 descreve homens e mulheres torturados, perseguidos e mortos por causa da fé).
A falta desse discernimento me impediu de compreender que o verdadeiro livramento divino não consiste, necessariamente, em livrar o corpo da dor ou da morte. A Bíblia também ensina que muitos servos de Deus aceitaram sofrer por fidelidade, consideraram o morrer como lucro em Cristo, alegraram-se por padecer por Seu nome e entenderam que as tribulações produzem perseverança e maturidade espiritual (Hb 11:35b; Fl 1:21,29; At 5:41; Rm 5:3).
Durante anos ouvi pregações fragmentadas sobre curas e livramentos. São mensagens que atraem multidões, constroem grandes auditórios, megaigrejas, grandes arrecadações e ministérios famosos. Contudo, frequentemente produzem cristãos espiritualmente frágeis: pessoas consoladas emocionalmente, mas que ainda não compreenderam plenamente o chamado para morrer para si mesmas e viver em Cristo (Mt 11:28; Sl 10; Jo 4:22; Lc 22:32; Jo 3:6; Mt 11:29; Gl 2:20; 6:14).
Essas mensagens tornam-se frágeis diante de perguntas inevitáveis: Por que Deus não destruiu Satanás antes da queda de Adão e Eva? Por que não livrou João Batista da decapitação? Por que permitiu que Estêvão fosse apedrejado? Por que Paulo suportou prisões, açoites e perseguições?
Por que milhares de cristãos foram torturados, mortos por feras, serrados ao meio e queimados vivos, permanecendo fiéis até o fim? (Hb 11:35b-38 relata exatamente esses sofrimentos enfrentados pelos heróis da fé.) Será que esses homens foram menos fiéis do que Daniel e seus amigos?
Meus pais e meus professores da Escola Bíblica não me apresentaram plenamente o Deus revelado por Cristo como Pai amoroso — o Abba — presente conosco em Jesus, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Gl 4:6; Jo 1:29).
Também não me prepararam para crescer até a estatura espiritual do Cristo sofredor. Não me ensinaram que o verdadeiro livramento de Deus não consiste em evitar toda dor, mas em conceder coragem para permanecer fiel, sem medo nem vergonha, mesmo quando isso implica sofrimento e morte por amor a Cristo e ao Seu Evangelho (Jo 16:33; Fl 1:29; Cl 1:24; 2Tm 1:8; 4:5; Ap 7:13-14).
Não me ajudaram a perceber que: o Antigo Testamento contém figuras, sombras e elementos que apontam para realidades plenamente reveladas em Cristo (Hb 8:5; 10:1; Cl 2:17), além de advertências contra fábulas e ensinos humanos (Tt 1:14; 2Tm 4:4); o amor revelado por Cristo ultrapassa a compreensão limitada expressa em certas interpretações da antiga aliança (Mt 5:43); uma das estratégias mais eficazes do engano é apresentar apenas parte da verdade, omitindo aquilo que completa a revelação.
Cristo jamais iludiu aqueles que desejavam segui-Lo. Pelo contrário: afirmou claramente que Seus discípulos enfrentariam perseguições, renúncia, sofrimento e oposição por causa do Reino (Mt 10:21-25; Mc 8:34; Mt 19:21; Jo 16:33; Mt 5:10; 2Tm 3:12).
Como escreveu o apóstolo Paulo: "Foi concedido aos cristãos não apenas crer em Cristo, mas também sofrer por causa dEle" (Fl 1:29). E Tiago ensina que devemos considerar motivo de alegria o enfrentamento das provações, porque elas amadurecem nossa fé (Tg 1:2).
Também devemos compreender que o maior milagre na ressurreição de Lázaro não foi simplesmente a restauração temporária de seu corpo, que voltaria a morrer, mas o testemunho que sua vida passou a representar. Após ressuscitar, Lázaro continuou vivendo em um contexto de perseguição, tornando-se alvo daqueles que desejavam eliminar as evidências do poder de Cristo (Jo 12:9-11).
No artigo "A Grandeza do Menor Versículo", procuro explicar por que Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro. Em outros escritos, como "Evangelho da Glória da Cruz de Cristo — Toda Verdade" e "Psicopedagogia Divina Construtivista – Educação Integral Geratriz", desenvolvo essas reflexões com maior profundidade.
Deus, o Pai (Abba), não age como um mágico, nem como alguém que distribui sorte ou negocia favores. A Bíblia afirma que Deus é absolutamente fiel ao Seu próprio caráter: Ele não mente e permanece coerente com Sua justiça e Suas promessas (Tt 1:2; Hb 6:18). Da mesma forma, ensina que tudo aquilo que o homem semear, isso também colherá (Gl 6:7).
Os milagres registrados nas Escrituras são manifestações extraordinárias da soberania divina e confirmam a autoridade de Deus, mas não anulam os princípios que Ele estabeleceu para reger Sua criação.
Por fim, o relato da criação apresenta Adão e Eva como o primeiro casal humano, chamados a viver em comunhão com Deus, formar uma família, cultivar a terra e alimentar-se da vegetação que Deus lhes concedeu (Gn 1:29; 2:15). Gênesis também informa que Adão viveu novecentos e trinta anos e menciona a existência dos nefilins antes e depois do dilúvio (Gn 5:5; 6:4), passagens que têm recebido diferentes interpretações ao longo da história da teologia.