DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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A VIGÍLIA QUE FARÁ O INFERNO TREMER

 

Haverá um silêncio estranho naquela noite — um silêncio que não nascerá da ausência de sons, mas de uma suspensão do mundo. Será como se a própria terra prendera a respiração. Lá dentro, no pequeno templo de paredes gastas, algumas luzes ainda resistirão ao peso da escuridão. Não serão muitas. Nunca serão. Mas serão suficientes.

 

A vigília começará como tantas outras: passos tímidos, olhares cansados, algumas cadeiras rangendo. Mas haverá algo diferente naquela noite. Talvez será o modo como cada pessoa, ao entrar, deixará do lado de fora as distrações, os ruídos e até os medos. Ou talvez será apenas aquilo que não se explicará — essa convocação que atravessará o peito e dirá: “venha, é agora.”

 

À medida que as primeiras orações se erguerem, a atmosfera mudará. Não será um som alto. Não será um entusiasmo barulhento. Será a espécie de força que crescerá para dentro, silenciosa como brasas que irão tomando fogo até se tornarem chama.

 

E então acontecerá: um daqueles momentos que a razão tentará negar, mas que a alma reconhecerá de imediato. Será como se as paredes, o teto e até o chão anunciarão que outra realidade se abrirá ali. Algo vibrará no invisível, uma tensão antiga, milenar, a mesma que os profetas bíblicos chamaram de batalha espiritual e que os poetas e profetas contemporâneos chamarão de tempestade dentro do espírito humano.

 

Se houver alguém do lado de fora — alguém sensível o suficiente — talvez sentirá o frio na espinha, como se o ar sussurrasse que haverá guerra no céu.

 

O inferno tremerá. Não por causa dos gritos — não haverá gritos. Não por causa das multidões — não serão multidões. Tremerá porque cada pessoa ali, de olhos fechados, estará desperta. E uma igreja desperta será um perigo antigo, uma ameaça que o tempo não enfraquecerá.

 

Naquela noite, cada oração será um golpe. Cada lágrima, um avanço. Cada silêncio, uma espada erguida. E a vitória não estará no que se verá, mas no que se moverá dentro e ao redor, como um campo de força aceso.

 

Quando a vigília terminar, já perto do amanhecer, ninguém sairá de lá carregando troféus, revelações espetaculosas ou grandes sinais. Sairão apenas com algo que os outros não perceberão — mas que o inferno sentirá de longe: a convicção de que, enquanto houver quem vigiará, a noite nunca vencerá.

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 08/07/2020
Alterado em 22/11/2025