NA FLAMA DO TEU REGAÇO
Canso-me das procelas que se erguem dentro de mim. Não são tempestades do mundo exterior, mas convulsões íntimas, silenciosas, que turvam uma mente hermética e saturada de ruídos. Nessas horas, não caminho — orbito. Giro em torno de estilhaços: fragmentos de pensamentos, restos de memórias, promessas que não se cumpriram como imaginei. Tudo pesa. Tudo cansa.
Busco uma saída como quem tateia no escuro, convencido de que a resposta está sempre adiante, em algum outro lugar, em alguma nova formulação da vida. Engano recorrente. Pois toda tentativa de fuga termina no mesmo ponto. Sempre retorno. Sempre reencontro aquilo que, desde o início, me sustenta.
É curioso como a alma, mesmo ferida, sabe onde repousar. Mesmo confusa, reconhece o abrigo. Há um lugar para onde volto quando já não sei orar, quando as palavras se quebram antes de alcançar os lábios. Um lugar onde não preciso explicar minhas quedas nem justificar meus silêncios.
Na flama do teu regaço, o caos perde voz. O fogo que me envolve não é o que consome, mas o que aquece. Ali, o que em mim era ruína se transforma em cinza fértil; o que era medo se dissolve em confiança. O mundo não se reorganiza — mas eu, sim. E isso basta.
Aprendo, lentamente, que a fé não me livra das tempestades. Ela me ensina onde permanecer quando elas chegam. Não é um mapa para evitar o sofrimento, mas um centro estável para onde sempre se pode voltar. Um ponto de reencontro quando a vida se fragmenta.
Assim sigo: cansado, mas não vencido; ferido, mas não errante. Porque toda vez que me perco em mim mesmo, sou novamente encontrado no mesmo lugar de origem — na flama do teu regaço.