DO BARRO AO VERBO
UMA TRAVESSIA NORDESTINA DE PENSAMENTOS
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Textos

AUSÊNCIA PÓSTUMA

 

Talvez um dia, quando me perceberem, o tempo já tenha passado e, como folha seca levada pelo vento, eu também já tenha passado no tempo e, ao acaso, numa cova rasa e úmida, eu tenha me tornado húmus. Quem sabe eu já tenha até perdido o prumo e, a contragosto, ande curvado, como que procurando no pó aqueles outros tantos que já tenham partido antes de mim. Não que eu quisesse assim; a culpa fora das muitas quadras anteriores que a mim me impuseram à vida, à revelia das dores e ao óbice do momento. Razão por que te digo: mira-me, enquanto teimo em existir, e não tente divisar-me quando eu partir, logo após os dentes das engrenagens do tempo já me terem carcomido o corpo e me tornado rubiginoso, decrépito e macerado.

 

Dedica-te ao meu estado hoje, enquanto a vivacidade é o arcabouço que me sustenta a alma e que me faz insistir e recalcitrar pelo direito à vida, pois de nada me servirão tuas homenagens póstumas, tuas flores, tuas lágrimas e tuas orações. Então, faze de mim, enquanto vivo, um adesivo grudado em teu coração, e chora comigo, agora, as minhas algias, e sê presença certa em minha solitude; pois é certo que não sentirei a tua presença à minha lápide rasa e rude, nem a rosa deixada no granito frio do meu intermúndio e apodítico latifúndio: minha cova!

 

Fita o sorriso mais sem graça que sorrio agora e ri comigo das bobagens mais bobas que tenho importado das profundezas do imo pueril de minha alma tácita. Talvez assim, quem sabe, possas evitar, no futuro, o esforço imane de trazer à memória momentos aos quais não deste o menor valor e que agora tentas, desesperadamente, mantê-los vívidos nas divisões e galerias de tua mente culpada. Ei! Estou aqui, agora, percebe-me! Estou passando por ti e estou indo embora.

 

Caminha comigo agora, de mãos dadas e descalço, pela chuva fina que cai sobre minha pele marcada pelos açoites da vida, e canta comigo aquela canção — aquela que ouço todos os dias.

 

Assiste àquele filme ordinário comigo, hoje, e não desprezes as lágrimas que abri de meus olhos egros, macerados pela sucessão dos anos. Eu até suporto, se rires de mim; entenderei que ris contigo e, depois, que importa o propósito, se a minha intenção é apenas que te faças lembrar desse parco momento comigo, quando eu não mais existir.

 

Um dia, como tudo o que passa, por conta da conjugação do verbo, eu também terei passado e não mais estarei aqui; mas estarei nalgum lugar, pois meu passado será o meu futuro presente — bom ou ruim, será sempre assim para mim e para todos aqueles que são filhos de Adão... Ei! Psiu! Estou aqui, mira-me! Percebe-me!

 

Autor: Jeovan Rangel

Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 16/06/2020
Alterado em 21/01/2026