POEMAS, PÉTALAS E VENTOS!
TENHO SÉRIOS POEMAS NA CABEÇA (Autor: Pedro Salomão)
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APÓLOGO AO AMOR

A partir da análise dos poemas “Hino à razão” e “O Palácio da Ventura” — ambos do poeta Antero de Quental —, destaco uma característica forte no Realismo: quebra de expectativa do leitor. Essa “quebra” provém da ruptura dos ideais do Romantismo. Por exemplo, Casimiro de Abreu é um poeta romântico, reconhecido pelo sentimento saudosista e melancólico. Ao se debruçar na leitura de seus poemas, o leitor encontrará um verdadeiro deleite, uma vez que os sentidos se conectarão em tudo que é belo e riso. Esse deleite criará no interior uma expectativa de final feliz. E na verdade, a felicidade envolve o leitor, surpreendo-o com um grande gozo.

Todavia, no Realismo, tudo isso muda: uma flor viçosa agora esconde um grande espinho. Segundo o poema “Hino à razão”, de Antero de Quental, o Amor e a Justiça são inimigos da emoção. Grosso modo aquilo que só dava vida passou a matar também, sobretudo a expectativa de final feliz. Isso desperta no leitor uma angústia tão amarga, que o leva a sonhar com a realidade e nada mais! Coitada da criança interna! Ao se debruçar em textos realistas, o leitor vai gritar por liberdade e não vai achar. O leitor vai olhar o futuro e vai sofrer com uma grande frustração.

Segundo o poema “O Palácio da Ventura”, o sonho dá vida ao sonhador. Isso é perceptível em duas expressões, que aparecem na 1ª estrofe: “noites escuras” e “paladino do amor”. Em partes, a noite, para mim, é encantadora, bem como a lua e as estrelas — minhas fontes de inspiração. Logo, escrevo e vivo. Eu sei o que é “paladino do amor”. Ou apologista! Sou eu. O apologista do amor é aquele que ama sem precisar de para quem, para quê e por quê. Simplesmente ama e vai vivendo. É pleno e feliz. Em suma: é todo amor. Assim como o poema de Antero de Quental, o paladino do amor — se deixar — pode sofrer carente de um amor platônico, já que ele é vulnerável ao realismo. E se ele não acordar “pra” vida, o realismo vai encher sua alma de dores, causadas pela pressão da sociedade, inclusive gente mesquinha, a qual pensa que o poeta é o super-herói da humanidade e da natureza e que, consequentemente, só escreve palavras bonitas. Antero de Quental é um poeta prova viva de que o fim das coisas — doces como mel — pode ser tão amargo quanto fel. No tocante ao leitor, ele sente esse gosto amargo, a ponto de broxar o tesão da alma.

 
Jeovan Rangel
Enviado por Jeovan Rangel em 27/01/2021
Alterado em 27/01/2021
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